A Nati ontem me contou uma parte interessante do livro que ela está lendo, O Tao da Física (de Fritjof Capra). Nessa parte o autor falava sobre o budismo e algumas outras religiões orientais, e sobre as quatro nobres verdades do budismo. Numa descrição superficial, posso dizer que esses estágios da vida humana vão desde a constatação da insatisfatibilidade da vontade do homem, fato que trás sofrimento, até o esclarecimento (o estado de Nirvana). Há que se entender, segundo a teoria budista, que não existe individualidade e que portanto somos todos um. Temos a impressão da individualidade, e por isso nos apegamos ao efêmero - segundo esse autor, nos apegamos às coisas, às situações, às pessoas; isso ignorando que tudo funciona num ciclo, como diria o Heráclito, tudo flui e essa é a sua natureza. Esse ciclo pelo qual estamos passando, o de nascer e viver insatisfeito, buscando o prazer e também manter aquilo que gostamos inerte ao nosso lado, é chamado samsara. O grande objetivo da teoria budista é superar o samsara, entendendo aquilo que somos e qual a relação da nossa mente com o mundo, com os sentidos.
A grande sacada das religiões orientais em geral é justamente esse direcionamento àquilo que está dentro de nós, é o famoso conhece-te a ti mesmo grego. É a busca por aquilo que somos, qual a nossa relação com o outro e como podemos superar esse momento cíclico, angustiante e sem fim da encarnação. Você não sabe se acredita em reencarnação? Nem eu...
E ouvindo sobre isso, e pesquisando um pouquinho para poder falar para vocês, só sei que lembrei desse soneto do Camões, que quase todo mundo conhece (inclusive eu mesma) pela música que o Renato escreveu - Monte Castelo. O soneto 11 de Camões é o seguinte:
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Considerando aquilo que falei mais em cima, temos que ter a noção de que não somos um separado, mas um numa só unidade. E segundo tudo aquilo que eu sinto, aquilo que nos une é esse amor, contraditório, louco, e que não poderia ser melhor descrito do que foi por Luís de Camões. 'É um contentamento descontente', parece justamente aquilo que há quando amamos alguém, mas desejamos mais - mais tempo junto, mais provas de amor, mais, mais, mais...é o sofrimento em samsara, a insatisfação pela impossibilidade em ter aquilo que é fluído, em constante movimento. Isso porque não sentimos que somos todos um...
'É um andar solitário entre a gente', retoma, pra mim, o sentimento de ser um separado. Mas ao mesmo tempo, me parece imprescindível nos sentirmos sozinhos. O próprio Buda ficava anos em cima da árvore dele lá...o amor nos interioriza, e nos torna solitários também porque nos faz olhar para os nossos próprios sentimentos. Mas acredito que é justamente só o que está aqui dentro que nos une...
'Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?'. Pois é...como? Mas é.